Lojistas que recebem parte relevante de suas vendas via cartão de crédito parcelado enfrentam descompasso entre a venda e o repasse efetivo dos recursos pelas adquirentes, o que amplia o interesse por fundos estruturados capazes de antecipar esse fluxo
Quando um consumidor paga uma compra em várias parcelas no cartão de crédito, o lojista costuma receber o valor total da venda de forma diluída ao longo dos meses seguintes, repassado pela empresa adquirente responsável por processar a transação. Esse intervalo entre a venda e o recebimento integral dos recursos, ainda que reduzido pela prática já consolidada da antecipação de recebíveis junto às próprias adquirentes, continua representando um desafio de capital de giro para varejistas de diferentes portes, especialmente em períodos de maior volume de vendas parceladas, como datas comemorativas.
Fundos de investimento em direitos creditórios lastreados em recebíveis de cartões de crédito e débito surgem como alternativa complementar às linhas oferecidas diretamente pelas adquirentes, permitindo que o lojista negocie a antecipação desse fluxo junto a um fundo estruturado, muitas vezes em condições mais competitivas do que as praticadas no mercado bilateral entre varejista e adquirente.
Diversificação entre adquirentes e bandeiras reduz risco operacional
A estruturação de um fundo lastreado em recebíveis de cartão depende, em grande medida, da solidez do relacionamento contratual entre o lojista, as adquirentes responsáveis pelo processamento das transações e as bandeiras de cartão envolvidas na operação. Uma carteira que reúne recebíveis de lojistas com relacionamento diversificado entre diferentes adquirentes tende a apresentar menor risco operacional do que uma estrutura concentrada em um único processador, uma vez que eventuais falhas ou atrasos em um sistema específico de repasse afetam apenas parte da carteira.
Para Rodrigo Balassiano, diretor da ID CTVM, a segurança desse tipo de operação depende da capacidade do administrador fiduciário de validar, de forma contínua, a existência e a integridade dos recebíveis cedidos ao fundo.
“Um recebível de cartão de crédito só se converte em garantia efetiva quando existe um processo robusto de validação junto às adquirentes, capaz de confirmar que aquele fluxo futuro de pagamento realmente existe e não foi comprometido por outras operações do mesmo lojista. Trabalhamos com sistemas de conciliação que cruzam diariamente as informações declaradas pelo cedente com os dados fornecidos pelas próprias adquirentes”, explica o executivo.
A ID CTVM atua como administradora fiduciária e custodiante de fundos estruturados voltados a diferentes segmentos da economia real, o que inclui operações lastreadas em recebíveis de cartões de crédito e débito do varejo, aplicando a esses ativos processos de conciliação em tempo real e auditoria de lastro que acompanham a movimentação diária das transações processadas pelas adquirentes.
Sazonalidade do varejo influencia o dimensionamento das operações
O comércio varejista brasileiro apresenta padrões sazonais bem definidos, com picos de faturamento concentrados em datas específicas do calendário comercial, o que influencia diretamente o volume de recebíveis de cartão disponível para antecipação ao longo do ano. Fundos estruturados voltados a esse segmento precisam ajustar seus critérios de elegibilidade e seus limites de concentração à dinâmica sazonal de cada categoria de varejo, uma vez que lojistas de segmentos como vestuário e eletrônicos costumam concentrar parte relevante de seu faturamento anual em poucos meses específicos.
Essa sazonalidade também influencia a análise de risco de crédito do lojista cedente, cuja capacidade de honrar eventuais obrigações contratuais complementares à cessão dos recebíveis pode variar de forma relevante entre os períodos de maior e menor movimento comercial. Redes varejistas com presença em múltiplas praças e categorias de produto tendem a apresentar um fluxo de recebíveis mais estável ao longo do ano do que lojistas concentrados em um único segmento sazonal.
O prazo médio de parcelamento praticado por cada categoria de varejo também entra no cálculo do fundo, uma vez que uma venda parcelada em doze vezes gera um fluxo de recebíveis mais longo e mais sensível a eventuais mudanças na capacidade de pagamento do consumidor final do que uma venda à vista ou parcelada em poucas prestações. Segmentos como o de eletrodomésticos e o de móveis, que costumam trabalhar com prazos de parcelamento mais estendidos, exigem por isso uma análise de risco diferente da aplicada a categorias de giro mais rápido, como vestuário e alimentos.
Perspectivas para o crédito estruturado no varejo
Com o volume de vendas parceladas no cartão de crédito mantendo relevância no comércio brasileiro e lojistas de médio porte buscando alternativas de capital de giro mais competitivas do que as oferecidas diretamente pelas adquirentes, a tendência é que operações de crédito estruturado lastreadas em recebíveis de cartão ampliem sua presença dentro da indústria de FIDCs. Para administradores fiduciários especializados nesse tipo de operação, a capacidade de validar com segurança a existência dos recebíveis cedidos e de acompanhar a sazonalidade do varejo deve seguir como um diferencial técnico relevante para sustentar a confiança de investidores nesse segmento do crédito privado. Habilitada pela Comissão de Valores Mobiliários e pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais para atuar em administração fiduciária, custódia qualificada e controladoria, a ID CTVM soma a esse segmento a experiência já consolidada em fundos pulverizados de outros setores da economia real sob sua administração.
Sobre a ID CTVM
A ID CTVM é uma instituição especializada em infraestrutura para o mercado de capitais, com serviços de administração fiduciária, custódia, escrituração, controladoria e distribuição de fundos de investimento. Fundada em 2020, a companhia reúne atualmente mais de 550 fundos e mais de R$ 50 bilhões sob administração e custódia, com presença relevante em estruturas como FIDCs, FIPs e FIIs. Combinando tecnologia, governança, conhecimento regulatório e eficiência operacional, a ID oferece suporte a gestores, investidores, empresas e demais participantes do mercado, contribuindo para operações mais seguras, eficientes e transparentes.
