Como pontua Taiza Tosatt Eleoterio, profissional com atuação em apoio a mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade, a vergonha é um dos sentimentos mais determinantes e, ao mesmo tempo, mais silenciosos na manutenção do silêncio de mulheres que vivem situações de violência doméstica, muitas vezes pesando mais do que o próprio medo do agressor na decisão de não falar sobre o que está sendo vivido.
Diferente do medo, que costuma ser reconhecido e nomeado com mais facilidade, a vergonha opera de forma silenciosa, quase invisível até mesmo para quem a sente. Ela se instala na forma como a mulher enxerga a própria história, fazendo-a acreditar que, de alguma maneira, deveria ter agido diferente. Compreender esse mecanismo é essencial para que familiares, amigos e profissionais saibam acolher sem reforçar, ainda que involuntariamente, esse peso.
Por que a vergonha se instala mesmo quando a mulher não tem culpa?
A vergonha, nesses casos, costuma nascer de uma confusão entre o que aconteceu e quem deveria ser responsabilizado por isso. Mesmo sabendo, racionalmente, que a violência é responsabilidade exclusiva de quem a pratica, muitas mulheres carregam a sensação de que deveriam ter percebido antes, evitado a situação ou reagido de forma diferente, como se existisse uma forma “certa” de lidar com um comportamento que nunca deveria ter acontecido.
Taiza Tosatt Eleoterio pontua que essa confusão entre culpa e vergonha é um dos aspectos mais difíceis de desfazer, já que a vergonha não exige provas lógicas para se instalar; basta a sensação subjetiva de exposição e fracasso pessoal diante de uma situação que, na verdade, nunca foi escolha da mulher desde o início.
Como o julgamento social alimenta esse silêncio?
O medo de ser julgada, seja pela família, por amigos ou pela sociedade de forma geral, contribui significativamente para que a mulher prefira manter a situação em segredo. Perguntas como “por que você não saiu antes?” ou “você não percebeu os sinais?”, embora muitas vezes feitas com boa intenção, reforçam a sensação de que a responsabilidade recai sobre quem sofreu, e não sobre quem praticou o abuso, mesmo quando essa não era a intenção de quem perguntou.
No entendimento de Taiza Tosatt Eleoterio, esse tipo de julgamento, mesmo quando não verbalizado diretamente, é antecipado pela própria mulher, que passa a se calar preventivamente para evitar reviver esse tipo de questionamento, ainda que ninguém tenha, de fato, dito nada nesse sentido.
O papel da vergonha na dificuldade de pedir ajuda
Pedir ajuda exige, muitas vezes, verbalizar em voz alta o que está sendo vivido, o que pode ser extremamente doloroso quando a vergonha já está profundamente enraizada. Esse silêncio acaba isolando ainda mais a mulher, reduzindo justamente as possibilidades de apoio que poderiam ajudá-la a romper o ciclo da violência, criando um ciclo próprio em que o silêncio gera mais isolamento, e o isolamento reforça ainda mais o silêncio.
Taiza Tosatt Eleoterio observa que esse isolamento autoimposto, alimentado pela vergonha, é um dos motivos pelos quais o processo de buscar ajuda costuma levar muito mais tempo do que se imagina de fora da situação, algo que exige paciência de quem acompanha esse processo de perto.
Como a vergonha se conecta com a autoestima ao longo do tempo?
Viver sob violência doméstica por um período prolongado costuma corroer gradualmente a autoestima, fazendo com que a mulher acredite, cada vez mais, que merece pouco ou que não há alternativa melhor disponível para ela. Essa erosão gradual da autoestima e a vergonha se retroalimentam, tornando ainda mais difícil romper esse padrão sozinha, já que quanto menor a autoestima, mais forte tende a se tornar a vergonha de admitir a própria situação.
Taiza Tosatt Eleoterio enfatiza que reconstruir a autoestima é, muitas vezes, tão importante quanto sair fisicamente da relação, já que, sem esse trabalho, a mulher permanece vulnerável a repetir padrões semelhantes em relações futuras.
Por que a escuta sem julgamento faz tanta diferença?
Quando uma mulher finalmente decide falar sobre o que está vivendo, a forma como essa primeira escuta acontece pode determinar se ela buscará ajuda novamente ou voltará a se calar por muito tempo. Uma escuta acolhedora, sem questionamentos que soem como cobrança, fortalece a confiança necessária para dar os próximos passos, mesmo que esses passos ainda demorem a acontecer na prática.
Taiza Tosatt Eleoterio ressalta que familiares e amigos podem ajudar bastante simplesmente evitando perguntas que soem como julgamento, substituindo-as por frases que comuniquem apoio incondicional, independentemente das escolhas que a mulher ainda precise fazer, respeitando o tempo dela sem deixar de reforçar que o apoio continua disponível.
Como romper esse ciclo de silêncio?
Criar espaços seguros de escuta, tanto informais quanto institucionais, onde a mulher sinta que não será julgada, é fundamental para reduzir o peso da vergonha. Iniciativas de acolhimento social, sejam elas públicas ou comunitárias, têm papel decisivo nesse processo de reconstrução, oferecendo suporte prático além da escuta emocional. Campanhas de conscientização que reforcem que a responsabilidade pela violência é sempre de quem a pratica também ajudam a desconstruir, aos poucos, esse padrão de culpabilização silenciosa que ainda persiste em diferentes camadas da sociedade.
Afinal, romper o silêncio nunca é uma decisão simples, mas cada mulher que encontra um espaço de acolhimento sem julgamento está um passo mais perto de reconstruir a própria vida longe do peso que nunca deveria ter sido seu para carregar. Esse caminho, ainda que gradual, começa justamente quando alguém oferece escuta sem exigir explicações antecipadas.
